O dia em que o Nelson Rodrigues gostaria de estar vivo
Eu não torço para o Fluminense. Na verdade, o moleque que ainda mora dentro de mim, que é apaixonado por futebol e que tem um time em cada Estado e país, no Rio torce para o Botafogo, por causa da afinidade na fila dos anos 80 e 90 e pelo maravilhoso jogo da final do Carioca de 1989, onde metade de um Maracanã quase infartou quando o Maurício chegou primeiro num cruzamento do meu conterrâneo Mazolinha e eu fiquei imaginando qual seria aquela sensação, a mesma que eu só fui descobrir 4 anos depois, quando o Zinho chutou uma bola precisa no canto do Ronaldo e eu pude enfim gritar “é campeão”.
Entretanto, eu sempre tive simpatia pelo tricolor das Laranjeiras, pois umas das minhas primeiras lembranças futebolísticas é a do Assis e do Washington destruindo um Flamengo numa noite-quase madrugada de dia de semana e conquistando o Carioca (não lembro o ano, e como não existe ainda internet no meio do mato, não tenho como consultar no momento em que escrevo).
E agora, por ironia do destino, um outro Washington mas usando a mesma camisa tricolor listrada em lindos verde-branco-grená (alguém nega que é uma das mais bonitas camisas do mundo?), no mesmo Maracanã lotado, derrotou o inimigo e me mostrou, pela milionésima vez o quão apaixonante o futebol pode ser.
Inimigo porque, ainda mais que o Flamengo, o São Paulo é o time que eu mais odeio em todo futebol e agüentar os bambis ganhando mais uma Libertadores iria ser insuportável. Mas mais do que isso, a festa proporcionada pela torcida foi algo maravilhoso, você via nos olhos dos torcedores mostrados na TV que eles lá estavam para dar a vida pelo time, na partida mais importante da história, que não eram torcedores de ocasião.
A torcida mereceu, mas tão sincero quanto o choro deles foi o do Washington nos gols. No primeiro, o choro de raiva, de desabafo, daquela explosão que, caso o estádio estivesse em silêncio, seria possível ouvir seus gritos do lado de fora dele. Já no segundo, foi o choro de alegria e incredulidade, pois quantos são os seres humanos que podem dizer qual a sensação de fazer o gol que fez a história do seu time no último instante do jogo?
Mas o Fluminense não gira apenas em torno de seu camisa 9, ele tem o melhor argentino em solo nacional, um zagueiro que jogou no sacrifício que posso dizer que estará na Copa de 2010 fazendo dupla com o Henrique, dois laterais acima da média e um técnico que, bem, o que dizer agora do Renato Gaúcho?
Se existe a máxima que um dia todos amadurecem, e para melhor, ele pode se encaixar nisso. Jogador fora de série e rebelde, virou um dos melhores novos técnicos do Brasil, pois além de todas as qualidades, tem aquela que para mim é a mais importante, a vibração, a alma. A cena dele sentado no gramado, sozinho, olhando para tudo e pra nada ao mesmo tempo, estando em algum lugar que nenhum de nós consegue imaginar, é digna de um filme.
Por um dia, eu senti inveja dos torcedores do Fluminense.
O jogador Richarlyson, do São Paulo, esteve sábado na Flexx, uma boate gay da capital paulista. O atleta passou o tempo todo na área vip, usando boné, óculos escuros cravejado com cristais swarovski e um short bem curtinho.
A presença do jogador na boate fez com que os go-go boys ficassem agitadíssimos. Todos dançavam para Richarlyson.
Tomaram o meu chão, eu não sei onde foi parar. Minha vida é uma montanha russa emocional, aonde as coisas boas vão acontecendo lentamente, sem que muitas vezes eu perceba e, tão logo eu começo a tomar consciência delas, a queda inicia, rápida e urgente, e eu não consigo manter minhas mãos dentro do carro. Tudo que eu quero nessa montanha russa é um momento de estabilidade, onde eu corra em linha reta, sem grandes emoções. Abriria mão das grandes surpresas em troca de saber como será o meu amanhã, e da certeza que ele chegará sem me afligir dor e angústia. Quero navegar em águas paradas, com um pequeno remo com o qual eu possa dar a direção que eu quiser, sem me preocupar com as intempéries da natureza, sem ventos, chuvas, ondas ou raios. Dou, ao menos momentaneamente, o meu dom de sonhas e de criar em troca do céu e do script da minha vida. Fodam-se aqueles que dizem a nossa existência é feita de emoções fortes e da incerteza, que tudo precisa ser batalhado pois assim é mais gostoso. Já senti na boca o gosto do sangue e não apreciei. Quero desaparecer em um instante, padecer no coma da insignificância e acordar depois que o Apocalipse tiver passado. Eu não peço muito, vejam, eu só quero uma noite de sono. Nada mais.
Eu poderia fazer aqui uma resenha do show do Rufus Wainwright que fui na sexta, falar sobre as músicas, sobre a qualidade musical dele, do seu carisma e do fato dele chamar a mãe, a irmã e o cunhado para dividir o palco em algumas músicas. Poderia também dizer que a escolha do repertório foi perfeita, inclusive nas covers, que o som estava legal e que é ótimo voltar para casa depois de um show sem estar fedendo à fumaça de cigarro.
Se eu quisesse ser mais específico e demonstrar conhecimento de causa, para que meus leitores tenham uma idéia melhor de como foi o show, diria que Sanssouci me arrepiou, que ouvir California e Cigarettes and Chocolate Milk foi uma sensação incrível e que a versão de Hallelujah acompanhado de sua irmã foi uma das coisas mais incríveis que já tive a oportunidade de presenciar in loco.
Mas não, não quero ser mais uma pessoa a fazer mais uma resenha, com certeza muitos mais qualificados que eu acabarão fazendo isso, basta uma pequena busca em sites e blogs. Porém, se uma imagem vale mais do que mil palavras, quantas serão necessárias para descrever quase duas horas de paixão em forma de música? Eu não me atrevo a contar.
Algumas vezes o time já é campeão antes mesmo de entrar em campo. E era isso que aconteceu nesse domingo, afinal ninguém afirmaria que o Palmeiras iria deixar o título paulista escapar. Exatamente por isso a final acabou sendo meio sem graça, sem muitas emoções.
A final chegou, o juiz apitou o início de partida. Mas parece que o jogo não começou, foi devagar, meio em “slow motion”, porém é o jogo que nos interessava. E um cruzamento na área encontrou a cabeça errada no lugar certo – ao mesmo para nós – para abrir a porteira. Cinco gols em uma final, independente de contra quem seja, nunca é o esperado, mas esse é o Palmeiras, totalmente imprevisível, para o bem e para o mal.
Tão maior que a fila paulista, finalmente temos um artilheiro do campeonato. Eu esperava que o Alex Mineiro estourasse antes, afinal o acompanhei nos Paulistas de 1999 e 2000 quando ele jogou pelo União e foi artilheiro do time nos dois anos e, na época mostrava o faro de gol. Um craque? Longe disso, mas quem disse que os artilheiros o precisam ser?
Temos também o melhor jogador do campeonato, um chileno que apesar de meio apagado no domingo, fez um golaço e tem tudo que a torcida quer: categoria e raça. Também temos o melhor goleiro do Estado. Não, o melhor do país, quem sabe do mundo, porque em forma e motivado, ninguém é páreo para o São Marcos.
O que importa? Somos campeões e o caminho para novas vitórias está aberto. E se eu disse algumas semanas atrás que estava cheirando 1993, que assim o seja em sua totalidade.
Notas:
- Perder de 8 não dá, ainda mais numa final. E cadê uma chance na seleção para o Fernandão? Ele merece há pelo menos dois anos.
- Tem coisas que só acontecem com o Botafogo, como o Obina e o Diego Tardelli jogarem bola.
- Ainda bem que o Caio Júnior saiu daqui. O cara pode até ser bom, mas se não tem estrela não dá, o no caso dele nem é falta de estrela e sim de sobra de zica. E o mesmo vale pro Cuca.
- O Keirrison jogando ao lado do Alex Mineiro? Vai ter time tremendo...
Que eu adoro futebol, isso não é novidade para ninguém que me conhece, e que lê – ou leu – esse blog em algum momento dos 6 anos de existência dele. Outra coisa facilmente detectável é que eu sou palmeirense, alternando momentos de raiva, decepção, esperança e alegria, porém sem nunca abrir mão dessa condição. Daí alguém me pergunta: Por que palmeirense?
É, boa pergunta. Principalmente se você for levar em consideração a fatídica fila, que me levou a gritar “é campeão” apenas aos 16 anos. Durante esse período, ser campeão era um sonho tão impossível como ganhar na loteria ou fazer sexo com uma modelo, algo que sonhamos sempre, mas sabemos que nunca teremos o gostinho de saber como é, não que seja matematicamente impossível e sim por ser algo que não está destinados a nós.
Depois disso, a situação melhorou, mas não muito. Três Paulitas, dois Brasileiros, uma Copa do Brasil, um Rio-São Paulo, uma Libertadores e um Brasileiro da Série B, o que perfaz nove títulos num prazo de 31 anos, um a cada mais de três anos o que é, convenhamos, muito pouco.
Então, por que eu torço para o Palmeiras, e não para algum outro time que ganha mais títulos? Exatamente pelo motivo que não se escolhe para o time que você torce, se alguém algum dia dizer que escolheu esse ou aquele time, pode ter certeza que é um torcedor de merda! A grande verdade é que o time te escolhe, e daí já era, meu amigo.
Poderia muito bem dizer que sou palmeirense porque meu pai também é, e dos fanáticos, que me levava aos estádios sempre quando eu era pequeno, mas todos sabemos que isso não é a regra, cada vez mais está sendo a exceção. Não existe um dia que eu acordei e disse: vou ser palmeirense. Esse dia não existiu, simplesmente porque eu NASCI palmeirense.
Tá no sangue, tá na alma. É algo mais forte do que qualquer outra coisa, qualquer outro tipo de sentimento. Na vida você troca de tudo, de amigos, de amor, de religião, de ideologia política, até de sexo, mas nunca, jamais, em tempo algum, pode mudar de time.
Então por isso mesmo não busque explicação no que é inexplicável, não tem como entender a sensação que é ver aquele time de uniforme verde jogando, a torcida gritando, o hino tocando. Não se entende, apenas se sente.
É torcer para um time de verdade, onde a alma foi lapidada com sangue e lágrimas, sejam elas de alegria ou tristeza. É sentir um arrepio na espinha ao rever o gol do Zinho na final de 2003, as jogadas de Djalminha e Rivaldo em 2006, as defesas do nosso São Marcos nas Libertadores de 1999 e 2000, principalmente a última defesa no pênalti do Gambazinho Carioca e agora, o gol e a comemoração do Mago Valdívia contra os Bambis. É ter gratidão eterna para com Evair, Edmundo, Cesar Sampaio, Cléber, Roberto Carlos, Felipão, Arce, Alex, entre outros, pelos momentos que nos deram.
Mais que isso, é torcer pelo Brasil na Copa de 2002 com todas as forças apenas por causa do Felipão, do Rivaldo e do São Marcos. É chorar ao ver o time na segunda divisão, mas ser responsável por uma revolução no futebol brasileiro, onde se volta ao lugar devido pela porta da frente, empurrados por uma torcida que se tornou mais fanática e superou qualquer expectativa.
Pois o que se discute aqui não é quantos títulos seu time tem, ou se a torcida é ou vai ser a maior do Brasil. Estou pouco me fodendo para quem é a maior torcida, pois não me interessa a quantidade, e sim a alma. E ainda, como já disse um dos maiores entendidos de futebol desse pais, toda unanimidade é burra, assim como burra é a torcida que não tem alma. Burra e medíocre.
Assim, se você não entende o que é ver seu time fazer um gol, ou seu goleiro defender um pênalti, ou a sensação que é o apito do árbitro ao fim daquele jogo final que nos deu o título, então, infelizmente, tua vida nunca será completa.